Nossa história no Google é uma tragédia

retrato elâstomero

A seu favor milhões de motivos para enfrentar tudo aquilo em que acredita. Ao meu redor, poucos caminhos para seguir ao seu lado. Por outro lado, estamos frente a frente numa completa consolação e, mesmo assim, você finge não me enxergar. Sempre usando sua razão como arma para se fortalecer, em uma falsa guerra onde acredita vencer. Sua paz explode sob uma cortina de fumaça, por onde desapareço carregado pelo desconhecido. Deixo por um longínquo caminho rastros da minha dor. Caminho este que, por sua vez escolhi, porém, sem saber que seria tão frágil assim. Mas um pouco tarde, talvez, eu tenha perdido um pouco a minha fé. Para estancar a cachoeira do meu sangue, borra de café. Pois é, as escolhas na vida decidem a intensidade de uma dor. Sem ela não há existência em seu regime. Sob a violência da qual optou, a distância entre o céu e o mar nos separou. Mesmo sem me enxergar um palmo a sua frente, confiava em você toda a segurança do meu coração, igual criança ajoelhado aos pés da árvore de natal. Depois de abrir apenas um olho, pois o outro afastou-se e me trocou por um curativo, acordo deitado em um universo ainda mais desconhecido, branco e frio, levando-me o mais longe possível de todas as verdades da qual eu, assim como você, também fingia acreditar. Há esta altura, já não sabia mais quem estava cego, se era eu ou você. Agora me resta lutar, reaprender e crescer sem a letra V, a letra O, a letra Ç e a letra E.

Sérgio Silva, abril de 2014.

 

Arroz, feijão e repressão.

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Arroz, feijão e zóião quem nunca comeu, não sabe o que perdeu. Em dia de zóião, a alegria vira saliva no canto da boca. Prefere bem passado, por que ovo mal passado vem com a gema mole e a maior parte fica no prato, toda derretida. Zóião de dia e de noite. No almoço da marmita e no jantar. Uma dúzia ainda é pouco, quase não da para nada. Além da sua boca há outras, menores, ainda mais famintas. Por isso, cada pequeno pedaço tem o seu valor. Quando se tem pouco, pouco é muito. Se há muito, o valor ainda é maior.

O que o torna diferente para ter ou não ter? A televisão mostra que é possível comer um lanche feliz, mas viver com a barriga vazia não é ser feliz. Viver com fome é a base da repressão. Comer muito bem, em um bom restaurante, fotografar o prato bem arrumado e postar no Instagram é a base da emoção. Não seja culpado, seja cúmplice. A cumplicidade nos torna único e mais forte. A complexidade da vida pode ser apenas a questão do ser ou não ser.

A fome e a repressão são as piores coisas da vida. A fome por que mata e a repressão por que esfola. A fome é tão violenta que mata a própria fome te matando e, junto, toda a fúria da repressão. A repressão tal qual. Mas com uma pequena diferença: ela é burra. Por que quanto mais repressão, com mais violência se alimenta, a ponto de saciar qualquer fome. Abaixo a fome e a repressão. Apesar de você, ainda tenho meu prato com arroz, feijão e meu bem passado zóião.

 

Texto e foto: Sérgio Silva, abril de 2014.