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Meu olho esquerdo vale mais do que um milhão

Meu olho esquerdo vale mais do que um milhão

Entrar o ano com o pé direito tornou-se um costume perplexo de superstição. No meu caso, entro com o olho esquerdo e uma proximidade com o sentido racional da história. A prótese da bala trouxe de volta a moral da estética, agora, na qual me encaixo e faço parte. Mas seu poder de me colocar novamente diante do espelho, jamais trará de volta a sensação de não sentir dor. No fundo, sou grato à ciência e tecnologia que injeta esperança em nossas veias. Bem mais ao fundo, no país do futebol onde a jogada “bola para frente” assalta o verdadeiro significado da palavra superação, cria-se a ideia da obrigação de sorrir e ser feliz a qualquer custo, e a todo instante, demoniza o direito de falar sobre a dor e o sofrimento. Enquanto a bola rola, acreditamos no que vemos e nos esquecemos de quem realmente somos. De onde viemos. E do que somos feitos. Carne e osso, meu irmão, ainda vale mais do que um milhão.

Texto: Sérgio Silva
Fotógrafa: Elis Passos
Janeiro/2014

Este dia, este perverso dia, que veio depois de ontem.

  A poesia que chega através do mar diz que depois da tempestade vem a calmaria. Tratando-se da natureza, isto é uma grande verdade, porém,  quando a vida não é poesia nem sempre a máxima prevalece.

  Contemplo esta afirmação assistindo ao filme no qual se transformou o meu cotidiano, onde a fúria de uma jovem tempestade tomou conta do meu ser. Uma jovem fúria que passou a fortalecer meus músculos e, gratuitamente, passa a oferecer inúmeras câimbras ao final de um longo dia. Em tempo, após navegar entre capitães da areia e senhores dos mares, esta jovem tempestade aproxima-se sem aviso, se envolve com parte do meu corpo, e mostra sua força capaz de tombar embarcações e deixar náufrago o mais perito dos marinheiros. Mesmo formada em um sentimento único e particular, exclusivamente, ela possui um caráter delicado, demasiadamente humano, mais do que especial. Explico. Ao contrário da forma que chegamos ao mundo, essa fúria nasceu e cresceu do lado de fora e, dentro de mim, transformou-se em uma tempestade também composta por um foco de luz, da qual não se limitou apenas em tombar e revirar embarcações em alto mar. Contudo, forte o bastante para iluminar todo o mar e mostrar a direção correta do encontro entre o ato da existência humana e a linha além do horizonte, ou seja, erguer a cabeça e olhar para frente.

  Este dia, este perverso dia, que veio depois de ontem é o dia do nascimento da minha jovem fúria em forma de tempestade. Neste mesmo dia, em que sua força bruta saltou diante dos meus olhos, tentando me encontrar em um mar de sonhos, dúvidas  e razões, a dor e a tristeza tornaram-se maiores. Foi assim que, cego, diante de centenas de marinheiros, senti o tamanho da loucura de uma cartilha recheada por ódio e ignorância, capaz de abater o coração mais frígido. Eu quis enxergar e você não escutou. Agora pago.

   Porém, é bem verdade que muitas vezes não enxergamos por falta da nossa própria falta de vontade. Por hora, também é verdade que a vontade pode ser mais forte do que a razão. Logo, a vontade não pode submeter-se a cegueira da razão. Neste mar, por onde navegou a coragem e a vontade do poeta, jamais haverá quem possa bater no peito e dizer em alto tom de voz, sou dono da razão! Alguns tentaram e, outros, ainda tentarão, mas igual aos porcos, morrerão com a voz da razão após uma longa vida cercada por um chiqueiro. Na selva dos animais, em contra mão, surge a figura do pato, animal que não emite sons alto, e, por sua vez, não tem voz para ter razão. Preservando a memória, troco o mar revolto por terra firme, com a possibilidade de pensar em algo que possa diferenciar o dono da razão, o porco e aquele que por ordem capital, esta em último lugar na fila, o pato. Sobre o dono da razão e o porco, intelectualmente sou incapaz de encontrar tal diferença, porém, apto a dizer que ambos possuem mera semelhança: de serem domesticados e adaptados como animais de companhia, ou, simplesmente, criados apenas para o abate. Sobre o pato, sua própria natureza pode explicá-lo: é o único animal capaz de dormir com metade do cérebro e manter a outra em alerta, além de ser dotado de perfeito senso de direção e comunidade, o pato é um dos poucos animais da natureza que anda, nada e voa com razoável competência.

 Da minha jovem fúria tempestade, elimino o poder da palavra continência e a substituo por seu sinônimo imparcial: abstenção. Entrego-me à sabedoria do poeta e afasto-me da razão, mesmo sendo metade humano e outra metade, apenas um pato selvagem. Talvez esta seja a minha certeza, ou talvez uma nova dúvida. Para onde vão os patos quando o lago congela? Atrevo-me a responder: Para onde as asas da competência possam levar.

Sérgio Silva – janeiro 2014

Foto: Série Lágrimas de Sangue

obs: O título deste texto trata-se de um curto poema, do grande poeta. Paulo Leminski.

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