LÁGRIMAS DE SANGUE

Image Seis meses após ser atingido no olho esquerdo por uma bala de borracha, passei pela minha segunda cirurgia. Infelizmente, esta intervenção ocorreu apenas com o objetivo de uma correção estética, uma tentativa de minimizar o dano causado pela força do impacto da arma comercializada como “arma menos letal”.  De todos os males, o menor. Mas, alguns dias após a realização dessa intervenção cirúrgica, meu corpo, involuntariamente, reagiu. Consequência do trabalho médico que, por sinal, foi muito bem sucedido. Meu olho ficou bastante inchado por conta das duas horas que passei dentro de uma sala fria, de cores também frias, profundamente adormecido por uma anestesia geral. Em casa, novamente voltei a me encontrar diante do espelho e ver o reflexo da violência que sofri. O golpe mais uma vez foi duro. Nunca achei que fosse tão difícil ficar de frente ao espelho. Olhar para si e não enxergar sua verdadeira imagem, aquela que minha mãe com tanto carinho cuidou para que eu me transformasse em um homem, hoje pai de família. O golpe foi demais para o meu fragilizado coração que, logo, murchou. Igual flor ao fim de uma linda primavera. Baixei a cabeça e chorei. Senti uma lágrima fria escorrer sobre minha pele maltratada pelo tempo. Acreditei que era apenas mais uma, das incontáveis gotas que derramei neste curto período em que o tempo parou minha vida. E, quando resolvi levantar a cabeça e olhar para o espelho, percebi que a lágrima não era uma lágrima comum. Era a resposta do meu corpo que, em uma espécie de vida após a morte, dava ao meu olho ferido uma oportunidade de manifestar-se pela última vez. Assim, meu olho tristonho, resolveu falar e contar sua história através de uma interminável lágrima de sangue. Lágrima que escorreu desenhando em meu rosto uma pergunta, da qual eu não sabia responder.

Senti que este era um momento único, entre aquele que perdeu e aquele que se foi. Um instante particular onde um diálogo iniciou-se entre dois seres próximos, mas agora, completamente distantes. Eu precisava responder, mas se eu falasse quem iria me ouvir? Resolvi pegar minha câmera e registrar uma série de auto-retrato, dentro do único universo que me cercava, um azulejado banheiro. Essa foi a resposta que encontrei para dar ao meu olho. Essa foi a maneira que encontrei para dar voz ao meu corpo. Porém, talvez, essa não fosse a resposta que ele gostaria de ouvir. Mas eu sou fotógrafo, e a imagem transformo em palavras, aquela que meu corpo, completo por um olho cego, balbuciando frases e gestos deseja expressar.

Esta é uma série fotográfica composta por cerca de dez imagens, que retrata o meu atual cotidiano. Cenas da minha vida, compartilhada como forma de expressão. Uma tentativa de transformar a dor em palavra. Dor em fotografia. Dor em arte. Por que agora é chegada a hora de levantar a cabeça e seguir em frente!

SÉRGIO SILVA – Dezembro 2013